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sábado, 24 de outubro de 2009

Considerações sobre Gundam



Imagino que muitos já devem estar sabendo do adiamento do OVA de Gundam Unicorn. Acabou sendo uma notícia meio triste, principalmente quando estava esperando ansioso por esse OVA há exatas duas semanas atrás. O especial chegará agora somente no começo de 2010, mais precisamente na metade de março do ano que vem. O DVD e o Blu-ray virão com dublagem em inglês ou japonês, e opção de legenda em chinês, francês, inglês, espanhol e japonês, visando obviamente o mercado internacional.


Falei pouco sobre Gundam Unicorn aqui no blog, até porque inicialmente não estava tão interessado nele, mas foi só ver os primeiros trailers para surgir o interesse. Sei que os marinheiros de primeira viagem dificilmente assistirão esse "novo" Gundam, afinal ele se passa no universo clássico, conhecido como "Universal Century". E pensando nesse negócio de universos Gundam resolvi tecer alguns (muitos) comentários sobre isso (e no fim a notícia do Gundam Unicorn foi só gancho para comentar de Gundam, algo que queria fazer faz tempo).


Para quem não sabe, as primeiras franquias de Gundam se passavam nesse tal de "UC" e somente a partir de 1994, a Sunrise e a Bandai decidiram abandonar o antigo universo e começar a produzir novas séries em universos alternativos. Ou seja, de 1994 para cá, as séries principais envolvendo o nome Gundam passaram a acontecer em universos diferentes e consequentemente deixaram de ter ligação entre si. Apenas alguns detalhes clássicos como colônias espaciais, mobile suits, e claro, os Gundams continuaram existindo.


Então, todas aquelas séries que surgiram a partir da G Gundam (passando por Gundam Wing, Gundam X, Turn a Gundam, Gundam Seed e Gundam 00) podem ser vistas separadamente, sem que o enredo de uma influencie na outra. Cada uma delas se passa num universo diferente do original. Agora, por que fizeram isso? Bem simples, se considerarmos que Gundam é uma série de mais de 30 anos, seria ruim para a Sunrise e a Bandai manter a franquia no universo original até os dias de hoje, pois a nova geração dificilmente conseguiria acompanhar a história sem ter visto o primeiro Gundam e todas as suas continuações.


Ressetando a cronologia diversas vezes esse problema acaba sendo eliminado. E como Gundam é uma franquia que segue bem popular, também seria um desperdício encerrar de vez o título. Em resumo, as séries novas em universos alternativos servem para captar o interesse da nova geração, para quem sabe levá-las a se interessar por todo o rico universo de Gundam, em especial o original. E como consequência esses OVAs baseados no U.C, que vez ou outra aparecem, podem até acabar tendo uma aceitação melhor.


Pensando na minha própria experiência, só criei interesse por Gundam graças a exibição da série Wing no Brasil. Pelo menos para mim, até aquele momento animes de robô eram só pancadaria e destruição (tinha a clássica alergia a robôs gigantes que até hoje atingem muita gente aqui no Brasil), e mesmo que hoje não considere a Wing o melhor exemplo de série Gundam, foi graças a ela que tive interesse em assistir a franquia. Sei que tem um monte de fã saudosista que torce o nariz para essas novas séries, mas elas fazem um favor enorme em criar interesse pelo título. E convenhamos, mesmo depois de ser introduzido no universo Gundam, ainda não consegui ver tudo o que a U.C tem a oferecer, pois é um universo extenso demais.


Nesse ponto prefiro ficar com os universos alternativos, que são menores, mas não deixam de ser Gundam. Claro que a qualidade de grande parte delas é inferior a original (mas não é como se a U.C não tivesse as suas "porcarias" também). Tanto isso é verdade que a Bandai e a Sunrise não tem medo de arriscar com os universos alternativos, algo que ela nunca faria com a cronologia original. Basta ver os experimentalismos loucos presentes em G Gundam (Gundams fugindo totalmente da lógica de máquinas militares), Gundam Wing (Um bando de cinco Gundams indestrutíveis lutando contra o mundo inteiro), Turn a Gundam (Ok! A série é um pouco injustiçada, mas que aquele Gundam com bigode de Armstrong não convence de jeito nenhum, isso é verdade) e Gundam Seed (um retorno ao primeiro Gundam, mas de uma forma meio "pop").


Talvez as mais "normais" nesse ponto sejam a Gundam X e a 00. A X tinha um enredo interessante, que começava logo após a clássica apocalíptica guerra presente em qualquer título da série. O ponto é que a X nunca foi popular, e mesmo que a idéia não fosse ruim, o enredo não era algo admirável. Faltava também mais impacto nos próprios Gundams e Mobile Suits. É até engraçado que tenham colocado Gundams indestrutíveis na Wing, e um ano depois, colocaram Gundam de "porcelana" na X. Sendo contra ou a favor do meu comentário, a X infelizmente foi encerrada prematuramente (com 39 episódios, sendo a única série Gundam encerrada antes do previsto).


Por sua vez a 00 voltou a ter uma ambientação um pouco mais realista (tirando o character design) quando comparada a Seed. Outro ponto é que não deixou de lado a ficção científica, que se fazia presente na Seed por meio de assuntos como a clonagem e desenvolvimento genético. A 00 colocou em evidência a questão da energia, tanto que as intrigas da série acontecem em torno dos três elevadores orbitais, responsáveis por trazer energia solar a Terra. O único problema da 00 (e em menos escala da Seed) foi a segunda temporada.


Se a primeira tentava manter um nível relativamente próximo da nossa realidade, a segunda fugiu totalmente disso, tendo um enredo viajado provavelmente baseado no sucesso de Code Geass R2. E nesse caso, Geass foi um mal danado para Gundam (e aliás, a própria série não foi tudo isso que dizem). É só perceber que a Sunrise fazia questão de colocar uma reviravolta todo episódio, e não importava se isso tinha lógica ou não, contanto que tivesse reviravolta estava ótimo (afinal Geass conseguiu sucesso popular dessa forma).


O ponto é que em nenhum dos dois casos isso resultou num enredo sólido, mas reviravoltas e loucuras sempre fazem sucesso, e por isso ambas as séries acabaram tendo resultados aceitáveis e a 00 ainda vai ter um filme para encerrar a história. Em resumo, as reviravoltas foram o ingrediente usado pela Sunrise em mais um dos seus experimentalismos. O melhor é ficar apenas com a primeira temporada da 00. O mesmo valendo para a Seed, já que a Destiny praticamente destruiu o que a anterior havia conseguido (até ressuscitaram um certo personagem que não tinha as menores condições de voltar a vida). Em suma, é bem óbvio que a Destiny só surgiu devido ao grande sucesso feita pela antecessora.


Por outro lado a Cosmic Era é ainda hoje o universo alternativo de Gundam mais popular. A Seed e a Destiny somam juntas 100 episódios (aproximadamente). Mesmo que a Destiny tenha falhas graves no enredo, conseguiu um sucesso maior do que a primeira temporada da 00, a Turn Gundam e praticamente qualquer outra série alternativa boa ou razoável. Para vocês verem como o mundo é injusto, afinal, além da Seed (com exceção de uma ou outra parte), a única coisa que presta dentro do enredo da Destiny é o OVA chamado Stargazer. Curiosamente foi a única história do C.E que não fez sucesso algum.


A Stargazer pode até ter falhado pela pouca duração, mas conseguiu introduzir vários pontos interessantes, como o desenvolvimento de um Gundam não militar e um desenvolvimento de personagens (em especial do protagonista) muito melhor do que a Destiny fez em seus 50 episódios (E até hoje é difícil saber ao certo se o Shinn é o protagonista da Destiny). Era outra das séries injustiçadas bem ao estilo da Turn. Aliás, tirando o visual do Gundam e a discrepância cronológica, a Turn A Gundam não era uma série necessariamente ruim, mas fugia demais do padrão Gundam.



E sempre me perguntam da Wing, então vale comentar. Na verdade, como bem disse, agradeço demais a Wing por ter me introduzido ao universo Gundam, mas é inevitável não soltar boas risadas assistindo a essa série (e olha que deveria ser sério). Primeiro porque embora comumente os Gundams sejam máquina poderosas de guerra, na Wing eles são monstros indestrutíveis. Já repararam que qualquer Mobile Suit explode apenas por ter sido empurrado pelo Gundam? Pois é, e isso é apenas um dos detalhes, mas que quando somado a vários outros absurdos impossibilitam a série de ser algo mais.


Aliás, uma das frases mais hilárias que já ouvi (pelo menos na tradução em português) está logo no primeiro episódio quando o Trowa invade uma base com o Heavyarms. Enquanto combate o "herói" diz: "Minha missão secreta era apenas destruir o porto espacial, mas agora que me viram, vou destruir tudo". Ok! Parem e raciocinem. O personagem está invadindo uma base com um Gundam de 18 metros de altura e ainda todo da cor vermelha. Como assim missão secreta? E ainda para complementar tem a parte: "...era apenas destruir o porto espacial". Como destruir o porto espacial com um monte de explosivos e metralhadoras (armamento principal desse Gundam) pode ser uma missão secreta? E isso nem é o pior. Depois vem a parte: "agora que me viram (como se ninguém fosse ver alguém com um Gundam vermelho e de 18 metros de altura) vou destruir tudo (imagino que no fim essa fosse a intenção inicial)". Enfim, é impossível não rir dos absurdos da Wing.


Por outro lado, a Wing não é de todo ruim. O OVA do Endless Waltz embora reencarne alguns dos ilogismos e das ideologias fajutas da Wing, pelo menos é decente em diversos pontos, sendo que o melhor está nas próprias cenas de ação e na parte mecânica dos Gundams (não me refiro as asas de anjo do Wing Zero). Em nenhuma outra série tivemos Gundams tão detalhados, onde era possivel até ver os arranhões e outras imperfeições adquiridas por eles durante a batalha. E também, a menos nesse OVA ficava evidente que os Gundam não eram tão invencíveis quanto antes.


Chega a ser cômico ver que os OVAs e outros especiais na maioria das vezes são melhores do que a própria série alternativa, ou em alguns casos, até melhor do que algumas partes da cronologia original (no caso de OVAs da própria U.C). As vezes acho que a Sunrise só produz séries Gundam com 50 episódios por tradição, afinal é possível cortar alguns episódios que são totalmente inúteis para o enredo como um todo. E faria um bem danado no caso da 00 e da Seed. Mas no fim a tradição fala mais alto, e infelizmente somos (ou pelo menos eu sou) obrigado a engolir esses experimentalismos loucos da Sunrise e a continuidade nem sempre de forma feliz de uma das minhas franquias favoritas.


No entanto, seguindo a linha de raciocínio básica, a Unicorn tem tudo para ser uma grande série, já que vem do universo original e a Sunrise não costuma abusar do bom senso dentro da U.C. Talvez o Gundam principal passe essa sensação no início, mas é só vê-lo em ação (nos poucos segundos que ele aparece no trailer) para mudar de idéia. De qualquer forma, sendo Gundam no fim sou "obrigado" a acompanhar.
a

4 comentários:

Tati disse...

adorei o blog, vai lá no meu que tem um presente pra vc

Lancaster disse...

Bom, como eu gosto muito da franquia gundam clássica, acho que posso dizer umas palavras...

Primeiro, mesmo o gundam original tinha falhas. Isso nem pode ser negado – foi fruto da necessidade de equilibrar o conceito novo com as necessidades comerciais dos animes de robôs dos anos setenta. Tanto que na prática Gundam só decolou de verdade após os três longas-compilação. Eu realmente recomendo que você os veja – eles limpam a gordura da série original e estabelecem em tom o que seria Gundam daí para a frente.

Eu vou ser sincero: gosto muito do visual do Turn A Gundam – e da série. O pessoal reclama do "bigode", mas acho um dos visuais mais personais da história do gênero. Por outro lado é como você falou: se ele tivesse sido batizado, digamos, Garraizen Alpha ou qualquer outra coisa do tipo, ao invés de Gundam, as pessoas o enxegariam como ele é. Com o nome Gundam, o pessoal passou a cobrar dele coisas que não tinham a ver necessariamente com sua proposta. Eu acho Turn A injustiçado.

Já Wing, bom, eu já conhecia Gundam quando conheci Wing. Então não tenho o fator afetivo de "descobri a série aqui". Na verdade, Wing se pensarmos bem era até pior do que Code Geass em termos de reviravoltas atrás de reviravoltas – chegou a um ponto em que não tinha mais roteiro. E não posso perdoar Wing porque graças a ele, a franquia Gundam foi prejudicada: Gundam Seed quase foi trazida mas graças a rejeição de Wing de acordo com a Cartoon Network, a marca foi "queimada".

Leandro Nisishima disse...

"Eu realmente recomendo que você os veja – eles limpam a gordura da série original e estabelecem em tom o que seria Gundam daí para a frente."

Ótima sugestão. Vou tentar procurar.

"E não posso perdoar Wing porque graças a ele, a franquia Gundam foi prejudicada: Gundam Seed quase foi trazida mas graças a rejeição de Wing de acordo com a Cartoon Network, a marca foi "queimada"."

Acabou sendo uma pena. Na época lembro dos boatos e eles eram até fortes. Seria bom que a Seed tivesse vindo, afinal tem mais a ver com Gundam do que a Wing.

Lancaster disse...

Eram mais do que boatos. A matéria que escrevi para a Neo Tokyo nº02 surgiu justamente da conversa entre o editor, o Junior Fonseca, e o licenciante, para ver se aquilo dava um gás entre os fãs e ajudasse a desencalhar o material com a Cartoon daqui – o que não aconteceu. :(